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22
Out19

O Trabalho

Aurora Madaleno

O trabalho

É dos livros que o “trabalho” significa exercício de uma actividade humana produtiva, sendo trabalhador aquele que, por contrato, coloca a sua força de trabalho à disposição de outrem, mediante retribuição. Pena é que nem todos exerçam uma actividade a favor dos outros.

Foi fundamentalmente através da Constituição de Weimar de 1919 que os chamados direitos sociais, onde se inclui o direito ao trabalho, passaram a influenciar mais directamente as constituições europeias. Também a Constituição da República Portuguesa, influenciada pela primeira parte do artigo 23.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de Dezembro de 1948, consagra, no artigo 58.º, o direito ao trabalho.

Vem isto a propósito do anteprojecto do Código de Trabalho que o Ministro Bagão Félix pôs à discussão pública e a que a comunicação social tem dado alguma ênfase.

Chama-se anteprojecto porque se trata de esboço do projecto. Melhorado, ou não, o projecto tornar-se-á proposta de lei para ser votada. Já foi constituído um grupo de trabalho que, a partir de 12 de Setembro, elaborará o projecto final.

Enquanto os sindicatos acenam com greve geral para defesa das regalias dos trabalhadores, os representantes das empresas receiam que a lei não venha permitir maior competitividade para desenvolver a nossa economia e retirar Portugal da cauda da Europa.

Quem se sentir com capacidade e conhecimentos suficientes para intervir validamente na discussão desse anteprojecto deve fazê-lo, para que o trabalho possa ser dignificado e o trabalhador exerça a sua actividade com empenho, diligência, gosto e cuidado.

Seria muito bom que todas as partes soubessem analisar inteligentemente as alterações do anteprojecto e dessem forte contributo para se conseguir a máxima convergência de interesses.

Ninguém de bom senso aprovará leis injustas. Elas têm que ser justas quer para as empresas quer para os trabalhadores. A lei tem que vir de encontro às necessidades do tempo em que vivemos.

Aurora Madaleno 

(In: Jornal semanário A Guarda, 2 de Agosto de 2002; VilAdentro, Agosto/Setembro 2002, p. 12)

11
Out19

A latada da casa da minha Avó Maria

Aurora Madaleno

A latada da casa da minha Avó Maria

 

Era o mês de Agosto e os cachos da latada da casa da minha Avó Bicha, mãe da minha Mãe, ao Porto, tinham os bagos grossos mas ainda verdes. As duas parreiras estavam cheias de folhas que davam sombra refrescante naquelas tardes quentes de verão.

Eu tinha ido passar umas semanas de férias a casa da minha Avó. A minha Tia Nazaré, a irmã mais nova da minha Mãe, também morava ali e na casa de cima. Fazia-me saborosos pequenos-almoços. Nuns dias, assava a farinheira em cima da tampa do cântaro de barro ao calor das brasas da lareira. Noutros dias, fazia um lindo ovo estrelado numa frigideira colocada sobre a trempe à lareira. Torrava o pão espetado num garfo ao calor das brasas da lareira. Na mesa havia sempre o rico queijo de Vale de Espinho e pão daquele que ela fazia, e até vendia, e pão espanhol que comprava. Eu gostava, e ainda gosto muito, de azeitonas com pão. Não podiam faltar!

Claro que a comer regaladamente aqueles petiscos feitos pela minha Tia Nazaré e a não fazer mais nada do que ler ou conversar debaixo da latada da casa da minha Avó, voltava para a Guarda com mais uns quilinhos.

Muito gostava eu de saborear aquelas doces tardes de verão! Ao fim da tarde, tocavam às Trindades e começava a ouvir o chocalhar do gado a regressar das pastagens.

Recordo que quase sempre ia com a minha Avó à Igreja rezar o Terço ou as Cruzes.

Encontrava as vizinhas da minha Rua, a filha do Ti Pascoal, a Senhora Cecília, a Isabelinha do Ti Mário Pereira, a Ti Mira, enfim... muitas pessoas que falavam com a minha Avó e que eu mal conhecia a não ser pelo que ia ouvindo em família. Mas gostava de acompanhar a minha Avó e a minha Tia Nazaré. Já no tempo em que ainda andava no Liceu e ia passar uns dias a Vale de Espinho e ficava em casa da minha Madrinha, eu gostava de dar umas voltinhas pelas ruas que mais conhecia; ia ver a nossa casa e a casa do meu Avô Madaleno; ia ao Correio; ia a casa da Prima Prazeres do Ti Rachado, a casa da Ti Rosa do Ti Manuel Malhadas, ao Torreão... Ainda hoje gosto de ir ao Torreão e ficar ali sentada. Claro que já não vejo a escaleira da Ti Bina nem a escaleira do Ti Tó Campinhas nem da Ti Maria Campinhas. Já tudo se foi transformando e as pessoas desapareceram. Mas ainda não esqueci os lugares, os sons, as imagens e as pessoas que conheci.

Sempre me sabe bem ter memórias dos dias vividos com gente boa da aldeia onde nasci.

 

Aurora Martins Madaleno

 

11
Out19

O Ti António Céu

Aurora Madaleno

O Ti António Céu

 

Era o tempo das castanhas piladas. Nos caniços, colocados nas cozinhas por cima das lareiras, as castanhas já tinham secado o suficiente para serem pisadas, descascadas e comidas ou postas à venda aos negociantes que as vinham comprar directamente aos produtores da aldeia.

Na nossa casa não havia caniço. Era na casa do meu Avô Madaleno que se colocava o caniço todos os anos no mês de Novembro, logo a seguir à Festa de Todos os Santos ou, pelo menos, a seguir ao São Martinho.

Os castanheiros do Vale da Maria tinham produzido bem. Estavam carregados de castanhas. A família e os amigos ajudaram a apanhar as castanhas espalhadas pelo chão. Alguns ramos dos castanheiros foram abanados para as castanhas se soltarem dos ouriços. Havia ouriços caídos no chão que era preciso britá-los ou simplesmente abri-los melhor com um jeito de sapato ou dois pauzitos. Com as mãos não se atreviam, que os espinhos aguçados picam os dedos oh...! Enchiam as cestas de castanhas que iam despejar nas sacas de serapilheira dispostas ao longo do souto dos castanheiros. As sacas eram carregadas no carro de bois e trazidas para a loja da casa.

Farturinha de castanhas! Escolhiam-se as mais grossas para cozer e as mais miúdas para assar ou para subir para o caniço. Os negociantes apareciam a comprar todas as que o meu Pai e o meu Avô Madaleno quisessem vender.

Mas vamos às castanhas piladas...

Tanto que eu gostava de ver o Ti António Céu a pisar as castanhas!

Eu e as minhas amigas Maria Campinhas e Isabelinha Malhadas interrompíamos a brincadeira para subirmos a escaleira da vizinha e vermos o Ti António Céu dentro do cesto, agarrado com as mãos ao batente da porta e com as pernas a dançar para a esquerda e para a direita quase sem levantar os pés. Que giro! Ele ria-se para nós e nós dávamos gargalhadas umas para as outras. E ficávamos a admirar a dança do Ti António Céu ... e a vê-lo ir com as mãos ao fundo do cesto e trazer um par de castanhas a que tirava o resto da casca e distribuía por nós as três meninas curiosas. Eram as castanhas dondinhas que ele nos dava: castanhas que não tinham secado bem e nós mastigávamos com muito agrado. Eram docinhas e dondinhas! Dondinhas quer dizer molinhas.

Aos sete anos vim para a Escola, já na Guarda, e nunca mais vi o Ti António Céu.

Agora, quando compro castanhas piladas e me aparece uma dondinha, fico contente a saborear o doce e a saudade das castanhas que nos dava o Ti António Céu - o homem que, em quase todas as casas de Vale de Espinho, pisava as castanhas tiradas dos caniços. Tinha jeito para essa tarefa e a sua disponibilidade dava para angariar alguma retribuição que também jeito lhe daria.

 

Aurora Martins Madaleno

11
Out19

Sínodo da Amazónia

Aurora Madaleno

Sínodo da Amazónia

 

A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos da Região Pan-amazónica, convocada pelo Papa Francisco para o mês de Outubro de 2019, começou no dia 6 de Outubro e termina no dia 27 de Outubro.

O Sínodo vai reflectir sobre o tema "Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral".

Na Missa de abertura a que o Papa presidiu na Basílica de São Pedro, concelebraram também os novos cardeais, incluindo D. José Tolentino Mendonça.

Na Homilia o Papa Francisco sublinhou que as populações da Amazónia carregam "cruzes pesadas" e pediu que a Igreja lhes leve "a consolação libertadora do Evangelho".

A assembleia especial conta com 185 padres sinodais, 113 de circunscrições eclesiásticas pan-amazónicas (pertencentes a 7 conferências episcopais;

marcam presença 13 responsáveis da Cúria Romana, 15 religiosos eleitos pelos superiores gerais e 33 membros nomeados por indicação pontifícia.

Como habitualmente, há seis delegados que representam outras igrejas e comunidades cristãs presentes no território pan-amazónico;

12 convidados especiais como cientistas;

peritos no sector do meio ambiente e outras disciplinas;

25 especialistas indicados pelas suas competências específicas.

Depois do encerramento do Sínodo e entregues ao Papa os respectivos relatórios, conclusões e propostas, aguardaremos a Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Santo Padre.

 

Aurora Madaleno

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